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SAÚDE É PRIORIDADE: PÚBLICA E UNIVERSAL PARA TODOS E TODAS!


O povo brasileiro adoece de maneira profundamente desigual, apesar da garantia constitucional de ser a saúde um direito de todos e todas e dever do Estado. A classe social, o acesso ao trabalho, à moradia, à alimentação, à educação, aos serviços públicos e a direitos sociais são determinantes no seu processo de adoecimento.

A expectativa de vida ao nascer entre quem vive na região mais rica e mais pobre de uma mesma cidade chega a variar 26 anos. A mortalidade infantil em áreas das regiões Norte e Nordeste chega a quase três vezes a média nacional e vem crescendo com a crise. Temos uma morte no trabalho a cada 4 horas e somos a quarta nação com mais acidentes de trabalho. A vida nas cidades reproduz o adoecimento: além do déficit habitacional, temos péssimas condições de transporte e índices altíssimos de acidentes de trânsito. Ainda não universalizamos o saneamento básico: 45% dos brasileiros não têm tratamento adequado de esgoto. Cresce a sensação de insegurança generalizada, aumentando as taxas de suicídio e o uso de medicamentos contra depressão e ansiedade. No campo, tragédias ambientais como as de Mariana e Barcarena se multiplicam, o agronegócio e o extrativismo avançam causando danos irreversíveis à saúde dos ecossistemas e dos povos.

O machismo, o racismo estrutural e a LGBTIfobia também afetam as condições de saúde. Cerca de 60 mil pessoas são assassinadas por ano, mais de 70% delas são negras. Quatro mulheres morrem por dia em hospitais após buscarem socorro por complicações de aborto. A cada 19 horas, uma pessoa LGBTI é assassinada. A população indígena vem tendo a maior incidência de tuberculose e de outras doenças infectocontagiosas. Um terço dos adultos considera seu estado de saúde como regular, ruim ou muito ruim.

O processo de substituição dos hospitais psiquiátricos por uma rede de atenção psicossocial e comunitária foi paralisado por políticas que apostaram em métodos conservadores e na contramão das experiências internacionais, como as comunidades terapêuticas. A “guerra às drogas”, além de sua ineficácia, produziu nas últimas décadas uma imensa população carcerária: um em cada três presos do país responde por tráfico.

Para enfrentarmos esse cenário, é fundamental que o Estado atue na melhoria das condições de vida da população, na garantia do direito à saúde e na consolidação do SUS enquanto um sistema de saúde público, universal e gratuito. Foi através da expansão do SUS, do avanço da cobertura da Atenção Básica, de iniciativas como o Programa Nacional de Imunizações, de Controle de HIV/Aids e o Sistema Nacional de Transplantes de Órgãos e de outras políticas sociais que o Brasil avançou nos seus principais indicadores de saúde nas últimas duas décadas.

Contudo, o SUS vive desde sua criação um subfinanciamento crônico agravado com a Emenda Constitucional 95, que condena o país a um colapso sanitário e social e a um sucateamento sem precedentes. Caso essa emenda estivesse em vigor entre 2003 e 2015, a União teria gasto 42% a menos (257 bilhões) com ações e serviços públicos de saúde.

Mesmo com cerca de 75% da população sendo atendida exclusivamente no SUS, os gastos privados com saúde superam os públicos. Os recursos destinados à saúde pública, no Brasil, representam metade da média do gasto em países com sistemas universais semelhantes. Além disso, o gasto federal com saúde (aproximadamente 1,7% do PIB) vem diminuindo proporcionalmente ao dos municípios e estados na última década.

A privatização da gestão, especialmente via Organizações Sociais e estimulada pela restrição orçamentária promovida pela Lei de Responsabilidade Fiscal, não resolveu o problema da eficiência na utilização dos recursos públicos. Ao contrário: precarizou o trabalho, drenou enormes volumes de recursos públicos e fragmentou ainda mais o sistema. A capacidade da gestão pública, por sua vez, é cada vez mais enfraquecida, limitada e inviabilizada pela falta de recursos e pelas regras de contratação de pessoal e aquisição de insumos. Os baixos salários, a concorrência com o setor privado, os múltiplos vínculos, os contratos temporários precários e as péssimas condições de trabalho dificultam a fixação de profissionais no SUS.

A reformulação da Política Nacional de Atenção em Básica, em 2017, colocou em xeque a integralidade, o trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde e importantes avanços da Estratégia Saúde da Família. O país precisa fazer uma opção definitiva por uma Atenção Primária forte, qualificada, integral, longitudinal e resolutiva, garantindo a universalização da cobertura, o fortalecimento desta como porta de entrada e como real coordenadora do cuidado. Uma parcela significativa de unidades básicas de saúde não tem condições mínimas de funcionamento, seja por falta de profissionais, dispensação de medicamentos e até vacinação.

Precisamos assegurar um cuidado que seja capaz de absorver grande parte da demanda espontânea, que conte com mais recursos assistenciais e articule os serviços em rede. E que tenha protagonismo do trabalho comunitário, com uma equipe de saúde multiprofissional formada para trabalhar no SUS, e responder às necessidades da população. O Programa Mais Médicos ajudou a enfrentar uma carência histórica de médicos na Atenção Básica, mas não resolveu a má distribuição de médicos entre regiões e entre o setor público e privado e criou a maior parte das vagas de graduação de medicina em faculdades privadas. O Estado tem papel fundamental na regulação da formação para o SUS e precisa criar vagas de residência médica e multiprofissional na Atenção Primária, especialmente em locais com maior carência de profissionais.

A falta de coordenação das redes gera fragmentação. Precisamos de uma Rede de Urgências e Emergências integrada e com a Atenção Básica, garantindo a assistência pré e pós-hospitalar e rediscutindo o papel das UPAs, para que não haja relação predatória entre os níveis de atenção.

É urgente enfrentar os gargalos na atenção especializada e hospitalar, mudando a forma de contratação e o modelo de pagamento aos prestadores de serviço, e dando maior capacidade à gestão do SUS para organizar e direcionar a oferta privada secundária e terciária para toda a população. Com maior capacidade de planejamento da oferta pública e privada, é possível reduzir as filas e os tempos de espera e melhorar a distribuição de recursos humanos e de consultas, exames e cirurgias.

Precisamos também investir na ampliação e qualificação da rede hospitalar pública, especialmente nas regiões mais desassistidas e em especialidades onde há menor capacidade assistencial, aumentando a escala e a eficiência dos hospitais já existentes, ampliando o número de leitos e diminuindo sua ociosidade.

No campo da assistência farmacêutica, embora tenha havido avanços, o financiamento do consumo de medicamentos ambulatoriais segue sendo quase 90% privado. Esse gasto produz grandes iniquidades no padrão de consumo, prejudicando especialmente os mais pobres. Além disso, as farmácias e drogarias praticam margens de preços exorbitantes, se concentram em locais de maior renda e estimulam o uso irracional de medicamentos. A provisão pública de medicamentos na atenção básica é drasticamente afetada com o subfinanciamento federal e com problemas de logística e gestão, levando a situações recorrentes e inaceitáveis de desabastecimento. A situação se agrava ainda mais com os cortes no programa Farmácia Popular, que apesar de mais caro, de cobertura e abrangência mais restrita que a provisão pública, tem sido procurado por aqueles que não conseguem obter medicamentos no SUS. É fundamental o desenvolvimento de uma política industrial e de Ciência e Tecnologia para o setor farmacêutico que tenha os laboratórios e instituições de pesquisas públicas como pilares centrais, que seja orientada pelas demandas essenciais do SUS e que promova o desenvolvimento tecnológico guiado pelas necessidades de saúde.

A crise da saúde no país também decorre da mercantilização do sistema de saúde brasileiro aprofundada na última década. O modelo privado de prestação do cuidado gera grandes iniquidades e é ineficiente na produção de saúde, segmenta a assistência, prioriza a população mais saudável, deixa expostos grupos de risco como idosos e pacientes com câncer, depende da restrição de cobertura e acesso para aumentar sua lucratividade e é incapaz de dar resposta à determinação social da saúde da população. Além disso, concorre com o SUS, empurra os casos mais graves para o setor público e tem custos crescentes, não cumprindo seu papel complementar previsto na Constituição.


Grande parte da população que usa planos de saúde paga caro, tem cobertura restrita e de baixa qualidade e sofre com reajustes abusivos. Capturada por interesses econômicos, a Agência Nacional de Saúde Suplementar se coloca contra o interesse público e atua em nome do lucro dos grandes grupos privados de saúde, das multinacionais e de investidores do mercado financeiro.

Não queremos um SUS apenas para os mais pobres. Nossa proposta é radicalizar a universalização do acesso a ações e serviços públicos de saúde através do SUS, garantindo a integralidade e a equidade. Queremos investir no sistema público para que atenda com qualidade a todos os brasileiros, inclusive aqueles que hoje sofrem, reféns dos planos de saúde.


Propostas para avançar na universalização e desprivatização do Sistema de Saúde brasileiro

1. Aumentar o financiamento federal na saúde de 1,7% para 3% do PIB:

i. Encaminhar para consulta popular a revogação da Emenda Constitucional nº 95 e elevar o percentual da alíquota da saúde sobre a Receita Corrente Líquida;

ii. Reverter progressivamente a renúncia tributária com planos de saúde, começando por grandes empresas e trabalhadores e trabalhadoras de renda muito elevada.


2. Expandir e fortalecer a rede pública na atenção primária, secundária e terciária e na provisão de medicamentos:

i. Estabelecer mecanismos de gestão pública que permitam o planejamento estratégico de acordo com as necessidades da população e do SUS;

ii. Criar uma carreira única interfederativa do SUS que melhore a remuneração e a distribuição de profissionais de saúde, que garanta e a estabilidade por meio de vínculo público, que permita progressão e mobilidade entre funções e níveis do sistema e promova educação e qualificação permanentes.

iii. Expandir e qualificar a cobertura da Atenção Básica a 100%, priorizando o modelo da Estratégia Saúde da Família e tornando-a progressivamente porta de entrada preferencial e reverter a Política Nacional de Atenção Básica de 2017;

iv. Ampliar o número de leitos hospitalares públicos de forma que represente no mínimo 50% dos leitos hospitalares SUS, através de investimento em expansão e aumento de escala de hospitais regionais estratégicos;

v. Rever as regras de contratação, convênio e remuneração de hospitais filantrópicos e privados e condicionar as isenções fiscais a hospitais filantrópicos com atendimento 100% SUS;

vi. Ampliar o acesso a consultas e procedimentos na atenção especializada, de acordo com as necessidades regionais. Estabelecer um teto de espera para consultas e cirurgias conforme as necessidades de saúde, e, se necessário e solicitado pela autoridade local, utilizar a rede privada de serviços;

vii. Ampliar a oferta pública de medicamentos na Atenção Básica, com investimentos na gestão e na infraestrutura e garantia do abastecimento e acesso da população;

viii. Enfrentar o uso irracional de medicamentos, com regulação do comércio farmacêutico, revisão da política de preços e do rol de produtos que podem ser ofertados nas farmácias;

ix. Avançar na redução de leitos psiquiátricos, expandir significativamente a rede de atenção psicossocial e comunitária e estabelecer a Redução de Danos como principal diretriz para o tratamento de usuários de drogas.


3. Desprivatizar o SUS e regulamentar o mercado da Saúde:

i. Integrar e subordinar a Agência Nacional de Saúde Suplementar e suas atividades regulatórias ao Ministério da Saúde, com o fim da captura econômica e política da agência;

ii. Estabelecer o fim das franquias e copagamento, limitar a oferta de planos de saúde com cobertura restrita;

iii. Implementar o pleno e imediato ressarcimento dos planos de saúde ao SUS e auditar e cobrar as dívidas de planos de saúde com o SUS;

iv. Impedir a participação de investidores financeiros e estrangeiros no capital das empresas e a propriedade cruzada de empresas de planos de saúde, grupos hospitalares e empresas de diagnóstico.



SAÚDE É PRIORIDADE: PÚBLICA E UNIVERSAL PARA TODOS E TODAS!


O povo brasileiro adoece de maneira profundamente desigual, apesar da garantia constitucional de ser a saúde um direito de todos e todas e dever do Estado. A classe social, o acesso ao trabalho, à moradia, à alimentação, à educação, aos serviços públicos e a direitos sociais são determinantes no seu processo de adoecimento.

A expectativa de vida ao nascer entre quem vive na região mais rica e mais pobre de uma mesma cidade chega a variar 26 anos. A mortalidade infantil em áreas das regiões Norte e Nordeste chega a quase três vezes a média nacional e vem crescendo com a crise. Temos uma morte no trabalho a cada 4 horas e somos a quarta nação com mais acidentes de trabalho. A vida nas cidades reproduz o adoecimento: além do déficit habitacional, temos péssimas condições de transporte e índices altíssimos de acidentes de trânsito. Ainda não universalizamos o saneamento básico: 45% dos brasileiros não têm tratamento adequado de esgoto. Cresce a sensação de insegurança generalizada, aumentando as taxas de suicídio e o uso de medicamentos contra depressão e ansiedade. No campo, tragédias ambientais como as de Mariana e Barcarena se multiplicam, o agronegócio e o extrativismo avançam causando danos irreversíveis à saúde dos ecossistemas e dos povos.

O machismo, o racismo estrutural e a LGBTIfobia também afetam as condições de saúde. Cerca de 60 mil pessoas são assassinadas por ano, mais de 70% delas são negras. Quatro mulheres morrem por dia em hospitais após buscarem socorro por complicações de aborto. A cada 19 horas, uma pessoa LGBTI é assassinada. A população indígena vem tendo a maior incidência de tuberculose e de outras doenças infectocontagiosas. Um terço dos adultos considera seu estado de saúde como regular, ruim ou muito ruim.

O processo de substituição dos hospitais psiquiátricos por uma rede de atenção psicossocial e comunitária foi paralisado por políticas que apostaram em métodos conservadores e na contramão das experiências internacionais, como as comunidades terapêuticas. A “guerra às drogas”, além de sua ineficácia, produziu nas últimas décadas uma imensa população carcerária: um em cada três presos do país responde por tráfico.

Para enfrentarmos esse cenário, é fundamental que o Estado atue na melhoria das condições de vida da população, na garantia do direito à saúde e na consolidação do SUS enquanto um sistema de saúde público, universal e gratuito. Foi através da expansão do SUS, do avanço da cobertura da Atenção Básica, de iniciativas como o Programa Nacional de Imunizações, de Controle de HIV/Aids e o Sistema Nacional de Transplantes de Órgãos e de outras políticas sociais que o Brasil avançou nos seus principais indicadores de saúde nas últimas duas décadas.

Contudo, o SUS vive desde sua criação um subfinanciamento crônico agravado com a Emenda Constitucional 95, que condena o país a um colapso sanitário e social e a um sucateamento sem precedentes. Caso essa emenda estivesse em vigor entre 2003 e 2015, a União teria gasto 42% a menos (257 bilhões) com ações e serviços públicos de saúde.

Mesmo com cerca de 75% da população sendo atendida exclusivamente no SUS, os gastos privados com saúde superam os públicos. Os recursos destinados à saúde pública, no Brasil, representam metade da média do gasto em países com sistemas universais semelhantes. Além disso, o gasto federal com saúde (aproximadamente 1,7% do PIB) vem diminuindo proporcionalmente ao dos municípios e estados na última década.

A privatização da gestão, especialmente via Organizações Sociais e estimulada pela restrição orçamentária promovida pela Lei de Responsabilidade Fiscal, não resolveu o problema da eficiência na utilização dos recursos públicos. Ao contrário: precarizou o trabalho, drenou enormes volumes de recursos públicos e fragmentou ainda mais o sistema. A capacidade da gestão pública, por sua vez, é cada vez mais enfraquecida, limitada e inviabilizada pela falta de recursos e pelas regras de contratação de pessoal e aquisição de insumos. Os baixos salários, a concorrência com o setor privado, os múltiplos vínculos, os contratos temporários precários e as péssimas condições de trabalho dificultam a fixação de profissionais no SUS.

A reformulação da Política Nacional de Atenção em Básica, em 2017, colocou em xeque a integralidade, o trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde e importantes avanços da Estratégia Saúde da Família. O país precisa fazer uma opção definitiva por uma Atenção Primária forte, qualificada, integral, longitudinal e resolutiva, garantindo a universalização da cobertura, o fortalecimento desta como porta de entrada e como real coordenadora do cuidado. Uma parcela significativa de unidades básicas de saúde não tem condições mínimas de funcionamento, seja por falta de profissionais, dispensação de medicamentos e até vacinação.

Precisamos assegurar um cuidado que seja capaz de absorver grande parte da demanda espontânea, que conte com mais recursos assistenciais e articule os serviços em rede. E que tenha protagonismo do trabalho comunitário, com uma equipe de saúde multiprofissional formada para trabalhar no SUS, e responder às necessidades da população. O Programa Mais Médicos ajudou a enfrentar uma carência histórica de médicos na Atenção Básica, mas não resolveu a má distribuição de médicos entre regiões e entre o setor público e privado e criou a maior parte das vagas de graduação de medicina em faculdades privadas. O Estado tem papel fundamental na regulação da formação para o SUS e precisa criar vagas de residência médica e multiprofissional na Atenção Primária, especialmente em locais com maior carência de profissionais.

A falta de coordenação das redes gera fragmentação. Precisamos de uma Rede de Urgências e Emergências integrada e com a Atenção Básica, garantindo a assistência pré e pós-hospitalar e rediscutindo o papel das UPAs, para que não haja relação predatória entre os níveis de atenção.

É urgente enfrentar os gargalos na atenção especializada e hospitalar, mudando a forma de contratação e o modelo de pagamento aos prestadores de serviço, e dando maior capacidade à gestão do SUS para organizar e direcionar a oferta privada secundária e terciária para toda a população. Com maior capacidade de planejamento da oferta pública e privada, é possível reduzir as filas e os tempos de espera e melhorar a distribuição de recursos humanos e de consultas, exames e cirurgias.

Precisamos também investir na ampliação e qualificação da rede hospitalar pública, especialmente nas regiões mais desassistidas e em especialidades onde há menor capacidade assistencial, aumentando a escala e a eficiência dos hospitais já existentes, ampliando o número de leitos e diminuindo sua ociosidade.

No campo da assistência farmacêutica, embora tenha havido avanços, o financiamento do consumo de medicamentos ambulatoriais segue sendo quase 90% privado. Esse gasto produz grandes iniquidades no padrão de consumo, prejudicando especialmente os mais pobres. Além disso, as farmácias e drogarias praticam margens de preços exorbitantes, se concentram em locais de maior renda e estimulam o uso irracional de medicamentos. A provisão pública de medicamentos na atenção básica é drasticamente afetada com o subfinanciamento federal e com problemas de logística e gestão, levando a situações recorrentes e inaceitáveis de desabastecimento. A situação se agrava ainda mais com os cortes no programa Farmácia Popular, que apesar de mais caro, de cobertura e abrangência mais restrita que a provisão pública, tem sido procurado por aqueles que não conseguem obter medicamentos no SUS. É fundamental o desenvolvimento de uma política industrial e de Ciência e Tecnologia para o setor farmacêutico que tenha os laboratórios e instituições de pesquisas públicas como pilares centrais, que seja orientada pelas demandas essenciais do SUS e que promova o desenvolvimento tecnológico guiado pelas necessidades de saúde.

A crise da saúde no país também decorre da mercantilização do sistema de saúde brasileiro aprofundada na última década. O modelo privado de prestação do cuidado gera grandes iniquidades e é ineficiente na produção de saúde, segmenta a assistência, prioriza a população mais saudável, deixa expostos grupos de risco como idosos e pacientes com câncer, depende da restrição de cobertura e acesso para aumentar sua lucratividade e é incapaz de dar resposta à determinação social da saúde da população. Além disso, concorre com o SUS, empurra os casos mais graves para o setor público e tem custos crescentes, não cumprindo seu papel complementar previsto na Constituição.


Grande parte da população que usa planos de saúde paga caro, tem cobertura restrita e de baixa qualidade e sofre com reajustes abusivos. Capturada por interesses econômicos, a Agência Nacional de Saúde Suplementar se coloca contra o interesse público e atua em nome do lucro dos grandes grupos privados de saúde, das multinacionais e de investidores do mercado financeiro.

Não queremos um SUS apenas para os mais pobres. Nossa proposta é radicalizar a universalização do acesso a ações e serviços públicos de saúde através do SUS, garantindo a integralidade e a equidade. Queremos investir no sistema público para que atenda com qualidade a todos os brasileiros, inclusive aqueles que hoje sofrem, reféns dos planos de saúde.


Propostas para avançar na universalização e desprivatização do Sistema de Saúde brasileiro

1. Aumentar o financiamento federal na saúde de 1,7% para 3% do PIB:

i. Encaminhar para consulta popular a revogação da Emenda Constitucional nº 95 e elevar o percentual da alíquota da saúde sobre a Receita Corrente Líquida;

ii. Reverter progressivamente a renúncia tributária com planos de saúde, começando por grandes empresas e trabalhadores e trabalhadoras de renda muito elevada.


2. Expandir e fortalecer a rede pública na atenção primária, secundária e terciária e na provisão de medicamentos:

i. Estabelecer mecanismos de gestão pública que permitam o planejamento estratégico de acordo com as necessidades da população e do SUS;

ii. Criar uma carreira única interfederativa do SUS que melhore a remuneração e a distribuição de profissionais de saúde, que garanta e a estabilidade por meio de vínculo público, que permita progressão e mobilidade entre funções e níveis do sistema e promova educação e qualificação permanentes.

iii. Expandir e qualificar a cobertura da Atenção Básica a 100%, priorizando o modelo da Estratégia Saúde da Família e tornando-a progressivamente porta de entrada preferencial e reverter a Política Nacional de Atenção Básica de 2017;

iv. Ampliar o número de leitos hospitalares públicos de forma que represente no mínimo 50% dos leitos hospitalares SUS, através de investimento em expansão e aumento de escala de hospitais regionais estratégicos;

v. Rever as regras de contratação, convênio e remuneração de hospitais filantrópicos e privados e condicionar as isenções fiscais a hospitais filantrópicos com atendimento 100% SUS;

vi. Ampliar o acesso a consultas e procedimentos na atenção especializada, de acordo com as necessidades regionais. Estabelecer um teto de espera para consultas e cirurgias conforme as necessidades de saúde, e, se necessário e solicitado pela autoridade local, utilizar a rede privada de serviços;

vii. Ampliar a oferta pública de medicamentos na Atenção Básica, com investimentos na gestão e na infraestrutura e garantia do abastecimento e acesso da população;

viii. Enfrentar o uso irracional de medicamentos, com regulação do comércio farmacêutico, revisão da política de preços e do rol de produtos que podem ser ofertados nas farmácias;

ix. Avançar na redução de leitos psiquiátricos, expandir significativamente a rede de atenção psicossocial e comunitária e estabelecer a Redução de Danos como principal diretriz para o tratamento de usuários de drogas.


3. Desprivatizar o SUS e regulamentar o mercado da Saúde:

i. Integrar e subordinar a Agência Nacional de Saúde Suplementar e suas atividades regulatórias ao Ministério da Saúde, com o fim da captura econômica e política da agência;

ii. Estabelecer o fim das franquias e copagamento, limitar a oferta de planos de saúde com cobertura restrita;

iii. Implementar o pleno e imediato ressarcimento dos planos de saúde ao SUS e auditar e cobrar as dívidas de planos de saúde com o SUS;

iv. Impedir a participação de investidores financeiros e estrangeiros no capital das empresas e a propriedade cruzada de empresas de planos de saúde, grupos hospitalares e empresas de diagnóstico.


Este programa foi construído a partir de grupos de trabalho e discussão, de atividades públicas em todas as regiões do Brasil, e também das contribuições na plataforma (foram mais de 3 mil interações!)
Este é a versão do programa registrada no TSE. Em breve estar a disponível para interação e debate aqui também. É parte desse processo Sem Medo de Mudar o Brasil!

Consultores


Henrique Sater


Médico sanitarista, especialista em Administração em Saúde, mestre em Saúde Coletiva pela Universidade Federal Fluminense e doutorando em Saúde Coletiva na UNICAMP

Rosa Maria Marques


Professora titular do Departamento de Economia e do Programa de Estudos Pós-graduados em Economia Política da PUC-SP. Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP) e da Associação Brasileira de Economia da Saúde (ABrES). Integra o Setorial de Saúde do PSOL.

Nelson Rodrigues dos Santos


Professor aposentado da UNICAMP e presidente do Instituto de Direito Sanitário Aplicado, foi delegado da 8ª Conferência Nacional de Saúde de 1986.

Áquilas Mendes


Professor da Faculdade de Saúde Pública da USP e da PUC-SP, foi presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde.

Marcos Boulos


Médico infectologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, é coordenador de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. Foi Diretor do Hospital das Clínicas e da FMUSP.

Tadeu de Paula


Psicólogo Sanitarista, Professor Doutor em Saúde Coletiva da UFRGS. Coordenador Adjunto da Comissão de Política e Gestão da ABRASCO.